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Cursos de engenharia serão reestruturados: proposta é analisada pelo CNE

17/07/2018 10:40

O objetivo é trazer mais flexibilidade, prática, inovação e empreendedorismo às formações do setor. Mudanças, se bem aplicadas, poderão ajudar a melhorar o índice de competitividade do país, além de aumentar a empregabilidade de egressos


Proposta de reformulação dos cursos da área está em análise no CNE com o objetivo de trazer mais flexibilidade, prática, inovação e empreendedorismo às formações do setor. Mudanças, se bem aplicadas, poderão ajudar a melhorar o índice de competitividade do país, além de aumentar a empregabilidade de egressos.

 

Os recém-formados em engenharia engrossam os números do desemprego brasileiro, que atinge 13 milhões de pessoas. A construção civil, a indústria e os projetos de empreiteiras têm sido bastante afetados pela crise. Como resultado, muitas pessoas que enfrentaram pelo menos cinco anos nos bancos da faculdade terminam no desemprego ou no subemprego depois da formatura. Ao mesmo tempo, empregadores se queixam de não conseguirem achar mão de obra qualificada no ramo. O dilema tem relação com a qualidade dos engenheiros que o país tem formado. E também com a quantidade, já que os cursos são marcados por alto índice de evasão.


Para preparar mão de obra capaz de atender as necessidades da atualidade, faz-se necessário atualizar a formação. Os resultados do ranking mundial de inovação Global Innovation Index GII, divulgados na última semana, reforçam essa necessidade. As graduações em engenharia afetam a capacidade de o Brasil competir no mercado internacional. O país subiu cinco posições e se classificou no 64º lugar entre 126 nações na última edição do ranking. Apesar de ser a maior potência da América Latina, o Brasil foi o sexto colocado da região, atrás de Chile (47º), Costa Rica (54º), México (56º), Uruguai (62º) e Colômbia (63º). O estudo leva em conta 80 indicadores. Uma das maiores fraquezas brasileiras apontadas pelo levantamento são as graduações em ciência e engenharia (quesito em que o Brasil ficou em 79º lugar). Para melhorar, é preciso avançar quantitativa e qualitativamente.


O Brasil tem uma relação de 4,8 graduados em engenharia por 10 mil habitantes — proporção que sobe para cerca de 16 em nações como Portugal e Chile; e para mais de 20 em países como Coreia do Sul, Rússia, Finlândia e Áustria. Para progredir, as faculdades precisam arranjar maneiras de atrair mais estudantes (um desafio, visto que muita gente se afasta dos cursos por eles serem considerados difíceis), reter os que entram (já que os índices de evasão são altos, na ordem de 50%) e garantir que eles aprendam no ritmo certo (reprovações são muitos comuns, especialmente em disciplinas de cálculo nos primeiros semestres). Para tentar reverter todos esses problemas, estão em discussão novas diretrizes para os cursos superiores da área.


A proposta tem sido tema de conversas desde o início de 2017 entre a Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), a Confederação Nacional da Indústria (MEI/CNI), a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (Sesu/MEC) e o próprio Conselho Nacional de Educação (CNE), que avalia o documento. A expectativa de Vanderli Fava de Oliveira, presidente da Abenge, é de que o CNE termine de avaliar o material este mês e que o homologue em agosto. “Assim, as mudanças começariam a ser aplicadas em janeiro do ano que vem”, explica. “Estamos trabalhando nisso há um ano e meio e, agora, chegou o momento do finalmente”, completa Paulo Barone, secretário de Educação Superior do MEC. O objetivo é que as instituições de ensino promovam mais integração entre teoria e prática e formem engenheiros que não sejam apenas bons em cálculos e conteúdos técnicos, mas que tenham também habilidades comportamentais valorizadas pelo mercado de trabalho, como liderança e trabalho em equipe. Entre as alterações propostas estão a formação baseada em competências, o uso de metodologias inovadoras de ensino e o fortalecimento de parcerias com empresas.


O mundo do emprego

A reforma vem para contornar o desinteresse em torno de bacharelados na área, desencadeado, segundo Barone, por formações muito convencionais. “O fato de a educação superior em engenharia, tanto pública quanto particular, ser muito quadradinha e pouco inovadora não condiz com as aspirações da juventude nem com os requisitos do mundo do trabalho”, diz. “Os projetos pedagógicos são muito pouco atualizados, o que conduz à evasão. Em alguns casos, no fim do quinto ano de curso, só 8% dos alunos se formam.” Paulo Barone avalia a reformulação como central, já que “a engenharia envolve alguns milhares de cursos e uma força de trabalho fundamental para a inovação no Brasil”. Segundo ele, “é preciso romper com a lógica de um curso com uma etapa básica, que massacra os estudantes, separada de uma etapa profissional”. A expectativa de uma reforma bem empregada é, no fim da cadeia, a melhora da empregabilidade. “Cursos superiores com mais qualidade que antedam melhor as demandas da economia e da juventude contribuirão para baixar o desemprego. E quando se fala em emprego, é preciso pensar nas novas formas de trabalho, com empreendedorismo e startups”, diz.


Esse é um aspecto fundamental na avaliação de Vanderli, engenheiro civil, mestre e doutor em engenharia de produção e pós-doutor em educação em engenharia. “Quem arruma emprego para engenheiro é engenheiro. Então, é preciso ter mais formados desse campo abrindo empresas. Para isso, temos de formar um engenheiro empreendedor, o que só se consegue colocando-o para lidar com situações do mundo real, problemas de empresas, ainda na graduação.” Ele avalia que, se não houver mudança, a empregabilidade se tornará um problema ainda mais gritante. “Os melhores alunos brasileiros vão para o exterior. Daqui a pouco, teremos de começar a importar engenheiros de fora.” Para que as propostas sejam de fato postas em prática, o professor aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) defende que é necessário que as faculdades tenham parcerias com empresas, valorizem os professores que investem na graduação (sendo que, normalmente, trabalhos com pesquisa e pós-graduação são critérios para ser promovido), aderir a um sistema internacional de acreditação dos cursos.


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Correio Braziliense


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