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Nobel sai para estudos de combate à pobreza

15/10/2019 09:14


O prêmio Nobel de Economia agraciou os economistas Abhijit Banerjee (Índia), Esther Duflo (França) e Michael Kremer (EUA) pela “abordagem experimental da redução da pobreza global”. De acordo com o comitê da Academia Real de Ciências Econômicas da Suécia, que oferece o prêmio em memória de Alfred Nobel, o trio contribuiu de forma decisiva a políticas públicas e incentivos de combate à pobreza. Esther Duflo, além de ser a segunda mulher a ganhar o Nobel na área, assumiu o título de mais jovem economista a ser agraciada. Até então, o prêmio havia sido concedido apenas a Elinor Ostrom, em 2009.


Marcelo Neri, economista da FGV Social, acredita que, além da escolha do tema, os agraciados pelo prêmio se destacaram pela metodologia do trabalho. “Foram experimentos aleatórios colocados em prática. Eles foram a campo reproduzir políticas públicas com populações de baixa renda de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Esse método é fundamental para o conhecimento da causa e avaliação dos programas públicos testados, ter uma visão do que funciona ou não em termos de políticas sociais”, destacou. Para ele, o Nobel serve também de lição para o que não funciona.


A partir de experimentos de campo em países como Quênia e Índia, os pesquisadores mostram que a pobreza pode ser combatida de forma mais eficiente se dividida em questões menores e mais precisas em áreas como educação e saúde. “As descobertas das pesquisas dos premiados melhoraram drasticamente nossa capacidade de combater a pobreza na prática”, acrescentou a Academia Real em comunicado.


Renato Meirelles, CEO do Instituto Locomotiva, acredita que o resultado mostra a preocupação da Academia em colocar a pobreza como um problema econômico. “A  pobreza do mundo traz prejuízo à economia global e é um problema a ser resolvido. Com esse trabalho, vemos como a vida de milhões de pessoas pode mudar com um projeto pensado, focado na desigualdade”, disse.


Para ele, as pesquisas do trio trazem à tona a discussão de se “o Estado deve ou não interferir na economia”. “Dá o espaço ao bom senso, de percebermos que para algumas soluções e alguns segmentos, é necessário, sim, a intervenção de políticas públicas ou privadas. Acho que traz uma luz de esperança rumo ao bom senso nessa discussão”, comentou


Segundo o comitê, mais de 700 milhões de pessoas ainda sobrevivem com rendas “extremamente baixas”. A questão foi classificada pelos juízes do prêmio como uma das mais urgentes da humanidade. “A cada ano, cerca de 5 milhões de crianças menores de 5 anos morrem por doenças que poderiam ser prevenidas ou curadas com tratamentos que não são caros”, disse o comitê do Nobel.


Para o júri, os estudos e abordagens desenvolvidas pelos economistas permitiram ações mais eficazes para a saúde infantil e o desempenho escolar. “Os laureados mostraram como o problema da pobreza global pode ser resolvido com a divisão de perguntas em uma série menor e mais precisas em níveis individual ou de grupo. Em apenas 20 anos, essa abordagem reformulou completamente a pesquisa no campo conhecido como economia do desenvolvimento”, disse o comitê.


A entrega do Nobel ocorrerá em 10 de dezembro. O prêmio de nove milhões de coroas suecas será compartilhado pelos três economistas. O valor é equivalente a US$ 1 milhão ou R$ 3,85 milhões.


Ganhadores


2008 (EUA): Paul Krugman, por trabalhos sobre o comércio internacional


2009 (EUA): Elinor Ostrom e Oliver Williamson, com trabalhos separados que mostram que a empresa e as associações de usuários são, às vezes, mais eficientes que o mercado


2010 (EUA e Reino Unido): Peter Diamond, Dale Mortensen e Christopher Pissarides, pela melhora na análise dos mercados nos quais a oferta e a demanda têm dificuldades para se acoplar, principalmente no mercado de trabalho


2011 (EUA): Thomas Sargent e Christopher Sims, com trabalhos que possibilitaram o entendimento de como imprevistos ou políticas programadas influenciam os indicadores macroeconômicos


2012 (EUA): Lloyd Shapley e Alvin Roth, mostraram a melhor maneira de adequar a oferta e a demanda em um mercado, com aplicações nas doações de órgãos e na educação


2013 (EUA): Eugene Fama, Lars Peter Hansen e Robert Shiller, com trabalhos sobre mercados financeiros


2014 (França): Jean Tirole, com a análise do poder do mercado e de sua regulação


2015 (Reino Unido/EUA): Angus Deaton, com estudos sobre o consumo, a pobreza e o bem-estar


2016 (Reino Unido/EUA e Finlândia): Oliver Hart e Bengt Holmström, por contribuições à teoria dos contratos


2017 (EUA): Richard Thaler, com pesquisa sobre as consequências dos mecanismos psicológicos e sociaisnas decisões dos consumidores e dos investidores


2018 (EUA): William D. Nordhaus e Paul M. Romer, com estudos sobre economia sustentável e crescimento econômico a longo prazo


2019 (EUA, França/EUA e EUA): Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, com trabalhos no combate à pobreza


Perfis


Esther Duflo: A franco-americana é a segunda mulher e a pessoa mais jovem a vencer um prêmio Nobel de economia. Aos 46 anos, Esther foi assessora de Barack Obama na Presidência dos EUA e, atualmente, é professora no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge, nos Estados Unidos. Duflo é especialista em economia do desenvolvimento. Seu trabalho foi marcado pelas pesquisas realizadas na África, onde avaliava o incentivo ao trabalho de professores e à capacitação feminina. “Nossa visão de pobreza é dominada por caricaturas e clichês”, disse em entrevista à AFP, em 2017.


Abhijit Vinayak Banerjee: O indiano de Mumbai se tornou Ph.D, em 1988, pela Universidade de Harvard por sua tese sobre economia da informação. Atualmente é professor internacional de economia da Ford Foundation no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Em 2003, fundou o Laboratório de Ação contra a Pobreza Abdul Latif Jameel (J-PAL), ao lado da esposa, também vencedora do Nobel Esther Duflo, e Sendhil Mullainathan, e continua sendo um dos diretores. Ele possui outros prêmios internacionais como o Guggenheim Fellowship, Alfred P. Sloan e um Infosys.


Michael Kremer: O norte-americano é Ph.D pela Universidade de Harvard. Atualmente, é professor de sociedades em desenvolvimento no Departamento de Economia da universidade. O trabalho dele se destaca pelas pesquisas relacionadas ao desenvolvimento em países da América Latina e da África. Sua pesquisa mais recente se destina ao exame da educação, saúde, água e agricultura em nações em desenvolvimento. Kremer ajudou a desenvolver o compromisso antecipado do mercado para vacinas, cujo objetivo é estimular o investimento privado em pesquisas e distribuição em países em desenvolvimento.


Fonte: Correio Braziliense

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